Artigos

Lexotan e a dignidade

Entendemos que a finalidade da Educação não é apenas preparar o aluno para o mercado de trabalho, mas preparar todos os envolvidos com o processo de ensino-aprendizagem – inclusive trabalhadores – para a vida, ou seja, formar cidadãos numa visão integral.


Quase ninguém sabe, mas nos últimos tempos muitos trabalhadores estão vivendo à base de Lexotan (ansiolídico) para tentar sobreviver, diariamente, às pressões que se desencadeiam no dia-a-dia, por conta da reestruturação administrativa nas escolas.

Assim é que não poucos funcionários entram para trabalhar em instituições cristãs, que pregam a importância da vida solidária em favor dos excluídos da sociedade, mas, na prática, fazem exatamente o contrário, ou seja, oprimem ou perseguem seus trabalhadores, numa hipocresia incomensurável.

Aliás, estamos vivenciando profundas e rápidas transformações, quer nas relações econômicas, sociais, quanto políticas e ambientais. O que antigamente era valorizado – o tempo de casa, experiência e fidelidade – hoje se dá o nome de “acomodação” ou “não tem perfil para o cargo”, por conceito e definição do patrão.

Trata-se de uma contradição: a escola divulga o seu trabalho solidário e dos excluídos, e num discurso vazio diz que o trabalhador está em primeiro lugar; por sua vez o funcionário faz muito pela escola e não é reconhecido.

De mais a mais, a escola não contrata o candidato a emprego por não ter experiência e aquele que tem experiência não é absorvido no mercado, porque já passou dos 40 anos.

O que a escola procura afinal? Ela apenas reconhece no funcionário aquilo que ela quer e precisa. Ela quer competência (conhecimentos) e habilidades. Mas para ela nem sempre o trabalhador evolui na mesma rapidez que a instituição precisa.

A responsabilidade social da escola em reconhecer/atender a comunidade interna e externa é muito grande. A escola deveria fazer a correta exploração das aptidões inerentes aos indivíduos, livres de bloqueios e pressões, o que certamente levaria o trabalhador a conseguir no futuro uma sociedade mais crítica e inovadora.

A escola deveria desenvolver, ainda, competência e talentos diferenciados; deveria também investir nos seus profissionais, porque o sucesso ou fracasso das suas atividades didático-pedagógicas depende sempre das pessoas que lá trabalham.

O emprego é a base da dignidade! Tirar a dignidade de qualquer companheiro é tentar ultrajar o próprio Deus, pois “toda violação da dignidade humana é injúria ao próprio Deus cuja imagem é o homem”. (Puebla 36)

Não existe maneira de o ser humano colocar à prova todo seu potencial, que lhe foi dado gratuitamente por Deus, a não ser através do trabalho. Se a escola oferece e propicia essas condições com dignidade está contribuindo para a realização do bem comum e para a obra salvífica do Todo-Poderoso neste mundo.

Destaque-se, para finalizar, que o processo motivacional é desencadeado desde a entrada do funcionário, através do processamento de recrutamento, seleção e treinamento, até a sua integração na escola.

Neste caso, o Lexotan, em verdade, é o meio utilizado pelos trabalhadores para afastar a causa real do problema (pressão), na tentativa de neutralizar o seu efeito perverso (depressão), resgatando sua cidadania, sua dignidade, sua exclusão.

Nosso desejo é que nenhum funcionário se sinta obrigado a consumir Lexotan, mas, sim, que tenham à sua disposição um estoque permanente de atitudes éticas e respeitosas, por parte de todas as escolas.

() mas poderia ser Prozac, Pamelor (antidepressivos), Equilid, Frontal (ansiolídico)